Um pouco da sua história


Comecei na escalada esportiva nos anos 90, mas, pouco tempo depois, parei de escalar para me dedicar a uma das minhas paixões daquele período, o mountain biking. Naqueles “velhos tempos” havia uma grande dificuldade para se conseguir bons equipamentos importados e tive que escolher entre comprar uma bicicleta de qualidade ou adquirir meu material de escalada. Acabei optando pela “magrela” e só retornei à escalada, desta vez com força total, nos anos 2000.

E foi em 2001 que tive meu primeiro contato com a alta montanha, no Equador. Já havia estado na altitude antes, praticando trekking, mas dessa vez resolvi ser mais ousado e coloquei as duas mais altas montanhas desse país andino, o Cotopaxi e o Chimborazo, como a meta de minha ousadia. Enfrentei condições adversas bem além da minha capacidade técnica daquela época, mas não me arrependi nem um pouco: voltei ao Brasil convicto de que havia descoberto minha modalidade predileta nesse amplo leque de atividades que costumamos agrupar sob a denominação de montanhismo.

Ao longo dos anos fui acumulando experiência, tanto na rocha, quanto na alta montanha, e fiz vários cursos de escalada em rocha, resgate, trânsito em glaciar e escalada em gelo. Talvez por ser uma pessoa metódica eu sempre busquei um treinamento formal ou especializado antes de me “aventurar” em alguma nova modalidade. E essa minha característica talvez explique, também, meu gosto pela alta montanha e suas complexidades logísticas. É o tipo de atividade que requer planejamento e paciência, dentre outras coisas, o que acabou se compatibilizando com o meu trabalho profissional como gerente de projetos de tecnologia, como veremos adiante.

Um aspecto interessante do montanhismo são suas múltiplas possibilidades de crescimento pessoal, que poderiam ser resumidas em duas vertentes principais, um “desenvolvimento vertical” e um “desenvolvimento horizontal”. O desenvolvimento vertical é quando alguém escolhe alguma modalidade específica e concentra seus esforços quase que exclusivamente a ela. Por exemplo, quem está interessado na dificuldade técnica da escalada em rocha e busca dominar graus cada vez mais elevados se dedica, geralmente, à escalada esportiva ou ao boulder. Eu fui atraído, desde cedo, a um desenvolvimento horizontal, ou seja, a um aprendizado mais amplo de estilos e técnicas. Apesar de ser um entusiasta da escalada esportiva, essa minha opção acabou se constituindo um limitador ao meu crescimento nesta modalidade, já que sempre que vou à montanha sou obrigado a interromper meus treinos. Mas, por outro lado, me abriu uma gama imensa de possibilidades para que eu pudesse explorar a minha grande paixão: a alta montanha.

Assim, participei de várias expedições em países como Argentina, Chile, Guatemala, Peru, Venezuela, Bolívia e Equador e em 2009, finalmente, resolvi buscar um desafio maior, partindo para o Himalaia para a escalada da sexta montanha mais alta do mundo, o Cho Oyu. Nessa época já acumulava oito anos de experiência em alta montanha e, pelas minhas contas, umas vinte montanhas no currículo, além de um domínio técnico de várias modalidades de escalada e um bom conhecimento sobre minha capacidade de adaptação à altitude. Por isso, senti que a hora de encarar um “oito mil” havia chegado. O curioso é que, recentemente, li uma crítica sobre nossa expedição ao Cho Oyu, talvez por desconhecimento do autor em relação à minha história pessoal, que dizia que éramos inexperientes para o que iríamos tentar, já que, sendo coerente com os princípios éticos que defendo para o montanhismo, optamos por uma expedição independente, sem apoio de sherpas ou guias e, principalmente, sem o uso de oxigênio suplementar. Cheguei a 7800 m em um ataque solitário ao cume, pois as condições climáticas eram muito desfavoráveis e a maioria das expedições havia abandonado a montanha, e tive que desistir. Mas essa vivência me serviu para aprofundar meu conhecimento sobre minha performance na altitude e, a partir de então, passei a adotar um estilo defendido por alguns montanhistas de elite que buscam uma alternativa mais “elegante” às abordagens tradicionalmente utilizadas em grandes montanhas: o estilo “rápido e leve”, que muitas vezes se confunde com o estilo alpino.

E foi “rápido e leve” que consegui, em minha avaliação, minhas maiores conquistas. Na Argentina, por exemplo, fiz o cume do Mercedario, a quarta montanha mais alta dos Andes, em estilo alpino e em apenas quatro dias, sem aclimatação prévia. Outro desafio interessante foi a ideia de escalar em solitário, em um feriado de quatro dias, incluindo nesse período a ida e a volta ao Brasil, uma montanha acima de 6000 m. Realizei esse desafio em duas ocasiões e fiz o cume do Huayna Potosí, na Bolívia, e o cume norte do Nevado Ampato, no Peru, nessas condições. Como ficou difícil encontrar parceiro que topasse as dificuldades e os riscos envolvidos, passei a escalar em solitário, agregando um fator psicológico extra às minhas investidas na montanha. E confesso que tomei gosto pelo grau de comprometimento inerente a uma escalada solo. Não escondo meu orgulho por ter “solado” com sucesso montanhas não muito difíceis tecnicamente (apesar de não serem fáceis para um solo, obviamente), mas bastante perigosas, como o Chimborazo, no Equador, e o Illimani, na Bolívia.

Sobre o Marcelo Delvaux

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