Novas regras para o Parque Provincial Aconcagua


Autor: Marcelo Motta Delvaux – Guia superior de montanha EPGAMT, guia associado AAGM / AAGPM 

A direção do Parque Provincial Aconcagua estabeleceu novas regras de visitação, válidas a partir da próxima temporada que se inicia em novembro de 2014. Como o Aconcagua é um destino cada vez mais procurado pelos brasileiros para a prática de trekking ou para a tentativa de ascensão ao seu cume, creio que o conhecimento dessas regras seja de interesse da comunidade de montanhismo no Brasil, o que me motivou a escrever um pequeno artigo comentando as mesmas, com dicas que podem ser úteis a que está organizando ou buscando uma expedição para a montanha mais alta das Américas.

Um dos pontos do regulamento diz respeito à atuação dos guias estrangeiros no parque e as novas regras sobre esse tópico, na verdade, reforçam normas já existentes, explicitando e detalhando alguns aspectos relacionados ao trabalho do guia de montanha. Foi feito um convênio entre as associações de guias da Argentina (AAGM – EPGAMT – AAGPM) e as associações internacionais UIAGM (União Internacional de Associações de Guias de Montanha) e UIMLA (União Internacional de Líderes de Montanha). Somente poderão atuar no parque os guias com alguma certificação de validade internacional reconhecida por essas instituições. O parque já limitava a ação de guias não certificados, mas agora foi consolidado no regulamento quais são as certificações aceitas. A UIAGM encontra-se presente na Alemanha, Argentina, França, Inglaterra, Itália, Japão, Canadá, Nepal, Noruega, Áustria, Polônia, Peru, Suécia, Suíça, Eslovênia, Bolívia e Estados Unidos. Já a UIMLA tem atuação na França, Argentina, Andorra, Bélgica, Inglaterra, Polônia, Espanha e Suíça. A ausência de escolas e associações de guias de montanha no Brasil, ligadas a essas instituições, afeta diretamente o trabalho dos guias brasileiros e as expedições organizadas por empresas brasileiras ao Aconcagua, e é esse o ponto que vamos detalhar a seguir.

A necessidade de certificação para o guia de montanha, que é exigida em vários lugares do mundo para o exercício da profissão, é um tema polêmico, e incômodo, para aqueles que vendem tais serviços sem possuir a devida qualificação. Nos países onde a UIAGM e a UIMLA encontram-se presentes tal polêmica não é tão relevante: seria o mesmo que argumentar que não é importante contratar médicos, engenheiros ou advogados diplomados, por exemplo. Obviamente, ter um diploma ou uma certificação não é garantia de bons serviços e, em todas as áreas de conhecimento, existem bons e maus profissionais. Mas esse mesmo argumento se reverte contra quem o utiliza para justificar a não necessidade de uma qualificação para a atuação como guia: se, algumas vezes, nos deparamos com um profissional diplomado não confiável, como confiar em quem, nem ao menos, possui uma qualificação básica? Uma certificação, ou um diploma, é a mínima garantia que podemos obter sobre a aptidão de um profissional, indicando que o mesmo passou por processos de seleção, aprendizado e avaliação que o tornam habilitado ao exercício de uma determinada atividade.

No Brasil o entendimento sobre essas questões torna-se ainda mais crítico, já que as atribuições e requisitos para qualificação de um guia de montanha não são de conhecimento público e quem contrata os serviços de um guia, muitas vezes, nem sabe da existência de padrões e certificações internacionais regulamentando a profissão. Como a geografia física do Brasil apresenta montanhas de baixa altitude e sem neve e gelo, também seria difícil operacionalizar uma escola de guias local que possibilitasse a formação de profissionais atendendo todos os requisitos necessários à obtenção de um título de guia de montanha, conforme os critérios da UIAGM. Um guia de montanha precisa dominar os diversos estilos de escalada e saber transitar em todos os tipos de terreno, conhecendo as técnicas de progressão, segurança e resgate em escalada em terrenos verticais de rocha, gelo e neve e em glaciares e terrenos alpinos, além da experiência e vivência em grandes altitudes. Como acredito que o papel e as habilidades requeridas de um guia de montanha é um tema importante, deixarei seu desenvolvimento para um artigo futuro.

A grande amplitude das atribuições de um guia de montanha talvez explique porque os poucos guias brasileiros certificados vivam, atualmente, no exterior, onde é possível não apenas estudar, mas ganhar experiência nos mais diversos ambientes de montanha. Isso é particularmente importante, no contexto da nova regulamentação do Parque Provincial Aconcagua, quando se contrata uma expedição a essa montanha diretamente no Brasil, oferecida por guias brasileiros. O Aconcagua representa o principal “produto” de alta montanha da América do Sul e são muitos os interesses relacionados à comercialização de expedições. Por isso, é preciso ter cuidado ao se contratar uma expedição ao Aconcagua e conhecer o perfil do guia que acompanhará a expedição, para saber se ele possui algum tipo de certificação. Se for contratada no Brasil, é bem provável que a expedição se enquadre em um desses cenários:

1) A expedição é anunciada como sendo conduzida por um guia brasileiro, mas subcontratará os serviços de um guia profissional de montanha certificado, que será o líder oficial da expedição. Nem sempre isso é explicitado pelas agências e os clientes contratam os serviços pensando que o líder será o guia brasileiro. Outras informam a presença de um segundo guia certificado como sendo um guia assistente, o que não é verdade, já que o mesmo será formalizado como o guia responsável pelo grupo perante as autoridades do parque.

2) A expedição entra no parque como sendo uma expedição não guiada, ou não comercial. As empresas mais sérias atuam da forma anterior, subcontratando um guia certificado, mas existe o risco de que usem desse subterfúgio. O novo regulamento criou, explicitamente, duas categorias de expedições, as “expedições comerciais” e as “expedições esportivas”, sendo que a primeira categoria exige a presença de um guia certificado e, para as “expedições esportivas”, a contratação de um guia não é obrigatória. Porém, serão feitas exigências específicas para expedições dessa natureza, que irei detalhar adiante. O regulamento também prevê sanções e punições mais severas para os guias não certificados que tentam entrar no parque disfarçando suas atividades como se fossem expedições não comerciais.

Dentre os riscos e inconvenientes encontrados ao se contratar uma expedição liderada por um guia não certificado, poderíamos destacar os seguintes aspectos:

1) Você irá pagar mais caro: os preços mais elevados desse tipo de expedição são decorrentes dos altos custos envolvidos nas mesmas. Os guias não certificados não podem atuar no parque como guias de montanha, necessitando subcontratar os serviços de um guia qualificado. Uma mudança importante nas normas do parque, que deve encarecer ainda mais as expedições brasileiras organizadas por guias não certificados, é que guias de trekking certificados não mais poderão guiar até o cume, somente até a Plaza de Mulas. Até então, os guias estrangeiros contratavam guias de trekking certificados, cujos honorários são mais baratos que os guias de montanha, para serem os responsáveis pelo grupo. A partir da próxima temporada, isso não mais será possível.

Outro ponto que aumenta os custos das expedições organizadas por guias não certificados são os grandes gastos ligados à publicidade e ao marketing pessoal. Como tais pessoas não possuem uma certificação fundamentando sua atuação como guia, acabam tendo que investir em publicidade para forjar uma imagem de guia de renome ou repassar a venda de seus serviços para intermediários que investem na criação de tal imagem, utilizando estratégias midiáticas típicas dos especialistas criadores de celebridades. Não se engane: tais custos serão embutidos nos preços das expedições. E é preciso não se deixar enganar por rótulos apelativos como “o melhor ou o mais experiente guia”. Quem é realmente grande não se apresenta dessa forma e tais rótulos não substituem um título de guia. No próximo artigo que tratarei sobre a qualificação de um guia de montanha vou apresentar os requisitos necessários para a obtenção de tal título, segundo os padrões internacionais, o que poderá servir como critério de avaliação na contratação dos serviços de um guia.

2) Suas chances de chegar ao cume serão menores: essa constatação não diz respeito, somente, à falta de qualificação do guia não certificado, mas é uma consequência direta do tópico anterior. Se os custos de uma expedição liderada por um guia não certificado são elevados, uma forma de redução de tais custos é aumentar o número de participantes. No Aconcagua, a relação ideal seria de, no máximo, 3 clientes por guia. Mas expedições organizadas por guias não certificados, raramente, seguem essa proporção, sendo comum a relação de 4, 5 ou, até mesmo, 6 clientes por guia. Quanto maior o número de clientes por guia, menor probabilidade de sucesso. Outro detalhe importante é a impossibilidade de tais guias oferecerem um serviço personalizado, já que não têm qualificação para guiarem sem a subcontratação de um guia certificado, inviabilizando a formação de grupos com menos de 3 pessoas.

3) O guia que você está contratando não terá nenhuma responsabilidade sobre você: esse, a meu ver, é o aspecto mais crítico, principalmente do ponto de vista ético, já que você estará contratando os serviços de alguém que não poderá se responsabilizar pelas consequências de seu trabalho. Se o grupo entrar no parque como uma expedição comercial, necessariamente terá que contratar um guia de montanha certificado, e será o guia de montanha certificado o responsável oficial pelo grupo no decorrer da expedição. O guia não certificado, para as autoridades do parque, não tem nenhuma responsabilidade formal sobre o grupo, ao contrário do que o cliente, que acabou pagando mais caro para ir ao Aconcagua com um guia-celebridade, poderia imaginar. Quanto às implicações legais relacionadas a isso, prefiro deixar aos especialistas em Direito.

Para quem estiver indo ao Aconcagua sem contratar os serviços de um guia, ou de uma expedição comercial, continua valendo a não obrigatoriedade de contratação de um guia para a realização de atividades no parque. Conforme mencionei anteriormente, tais atividades serão enquadradas na categoria de “expedição esportiva” e a principal mudança em relação às normas vigentes até então diz respeito às novas exigências para esse tipo de expedição: será necessário apresentar um “plano de expedição” e, para cada integrante, um certificado médico e uma declaração assinada de aptidão física, além de contar com rádios VHF.

Segue a minuta com as novas regras, conforme divulgadas pela direção do parque:

Regulamento Aconcagua 1

Regulamento Aconcagua 2 Regulamento Aconcagua 3

Regulamento Aconcagua 4 Regulamento Aconcagua 5 Regulamento Aconcagua 6 Regulamento Aconcagua 7 Regulamento Aconcagua 8 Regulamento Aconcagua 9

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