Da arte de se concentrar escalando e outros mistérios…


filosofia_montanha

Autor: Marcelo Delvaux

Sempre tive o hábito de ler vários livros ao mesmo tempo e, em não raras ocasiões, diálogos surpreendentes se estabelecem entre as leituras que se intercruzam. Foi o que me aconteceu recentemente quando devorava, simultaneamente, duas obras tão díspares como Diez (posibles) razones para la tristeza del pensamiento, do crítico literário e filósofo George Steiner, e o excelente Em busca da alma de meu pai, de Jamling Tenzing Norgay. Enquanto Steiner desfia em seu pequeno ensaio a tradição filosófica ocidental para analisar o modo como pensamos, Jamling, que é filho de Tenzing Norgay, o sherpa companheiro de Edmund Hillary na conquista do Everest, narra sua escalada a essa montanha, enriquecendo a descrição dos acontecimentos da trágica temporada de 1996, tão conhecidos e divulgados em inúmeros outros livros e reportagens, com sua visão de mundo singular, marcada pela cultura sherpa e pelos valores budistas.

Steiner, apesar de se debruçar sobre um tema aparentemente sério e monótono, o faz com bastante ironia e a leitura é fluida e agradável. Ao “pensar o pensamento”, Steiner identifica, como uma das causas da tristeza desse ato tão humano, a nossa impossibilidade de controlá-lo: é muito difícil manter um pensamento linear e constante, nossa atenção é frequentemente desviada por elementos internos e externos e nossa imaginação vaga a seu bel-prazer. Somente alguns privilegiados, como matemáticos, cirurgiões, lógicos formais, místicos praticantes de meditação, enxadristas e músicos, dentre outros, conseguem chegar um nível de concentração tal que o pensamento é mantido em um fluxo condensado, como um raio laser da mente. “E os escaladores?”, pensei ao ler esta parte, nosso simpático filósofo se esqueceu de citá-los. Já se vê que Steiner nunca subiu uma montanha! O tema da relação entre nossa capacidade de concentração e a prática do montanhismo sempre foi de meu interesse e, apesar de já ter se tornado um lugar comum afirmar que escalar ajuda na concentração, algumas questões merecem uma maior reflexão: porque algumas vezes conseguimos nos concentrar e outras não? O que se passa quando atingimos um estado de concentração absoluta, tendo a sensação de superar nossos medos e alterando, até mesmo, a percepção do tempo, que parece quase parar por alguns instantes?

Na verdade, só me dispus a pensar sobre isso quando, após trocar Steiner por um voo até as ladeiras do Everest na companhia de Jamling Norgay, me deparei com uma página inteira sobre o assunto, uma coincidência tão grande que parecia uma resposta de Jamling às inquietações de George: “Nas escaladas, a presença de espírito necessária em situações de perigo de fato faz com que, naturalmente, alcancemos um estado de total concentração, e é essa concentração que gera a consciência e o sentimento de estarmos plenamente vivos. Cada ação tem significado, porque cada movimento é uma questão de vida ou de morte”, dizia Jamling. Quando comparo a prática do montanhismo com minhas atividades como gerente de projetos costumo enfatizar que, mais do que aplicar as metodologias de gestão para aperfeiçoar o planejamento e a execução de minhas expedições, é a experiência na montanha que acaba sendo mais enriquecedora, com as lições aprendidas em situações-limite servindo para um melhor desempenho profissional. A relação com a filosofia não poderia ser diferente e podemos nos atrever a desdobrar algumas questões apontadas por Steiner a partir das lições da montanha.

Chamou-me a atenção uma observação feita pelo caro Steiner de que a prática contínua de estados de concentração profunda pode levar ao colapso mental, algo já percebido em muitos matemáticos e campeões de xadrez. É certo que, muitas vezes, saímos de nossas escaladas mentalmente arrasados, principalmente quando passamos por situações de risco elevado ou viven